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No prato, o cerrado vale mais
11 months ago • Por Ana Paula Jacques

Pequi, cagaita, baru, jatobá. Quando cheguei à Brasília, há cerca de duas décadas, confesso que pouco sabia sobre essas e tantas outras espécies nativas do Cerrado. Nasci nos Pampas gaúchos, o único bioma brasileiro que não faz conexão com o Cerrado, e, embora tivesse morado em cidades da região Centro-Oeste (CO), o segundo maior bioma brasileiro ainda era invisível no meu imaginário. Passados quase vinte anos, me considero uma cerratense.


Jatobá

Crédito: Rafael Facundo

Com esse parágrafo, faço a introdução do livro “Aqui tem Cerrado no Prato”, resultado de um trabalho elaborado a muitas mãos por profissionais que acreditam na gastronomia como estratégia para preservação e valorização da sociobiodiversidade do Cerrado. Além do livro, uma série de iniciativas que, como o próprio nome do projeto revela, visam promover o uso sustentável dessa diversidade biológica e cultural, muitas vezes desconhecida, por meio da gastronomia.

Localizado no coração do Brasil, infelizmente, o Cerrado ainda é invisível para a maioria dos brasileiros. Com isso, metade da sua cobertura original já foi desmatada ou antropizada sem que tenhamos nos dado conta. Uma pergunta pontual: quanta riqueza alimentar e medicinal perdemos? Talvez seja melhor nem pensar nisso e focarmos na outra metade de bioma que, ainda, nos resta.


Flor de pequi.

Crédito: Rafael Facundo

Para isso, será preciso resiliência pois, ano após ano, o Cerrado que ocupa as páginas dos noticiários é aquele que bate recordes de safra agrícola e eleva os números da balança comercial brasileira. Propositalmente, minimizam-se as notícias de que esse modelo produtivo bio-simplificador está avançando para novas áreas de Cerrado e convertendo nosso patrimônio biológico e água em monoculturas de soja, milho e cana de açúcar sob o pretexto de alimentar o mundo. E deixando as comunidades tradicionais ainda mais vulneráveis.

Aproveitando o atual momento em que a gastronomia passou a ocupar um novo espaço na sociedade e no qual os chefs de cozinha ganham visibilidade na mídia nacional e internacional, convidamos alguns cozinheiros a assinarem um Manifesto em defesa do bioma. “Queremos ver o Cerrado no prato do brasileiro e do mundo”, destaca o texto! No entanto, para isso acontecer é preciso o engajamento de outros cozinheiros que atuam nos mais de mil municípios em que há incidência do bioma. Já imaginaram se todos se dedicarem para inserir apenas um elemento da sociobiodiversidade do Cerrado nos seus cardápios de maneira regular? Nesse processo, é fundamental que os elos das cadeias produtivas sejam fortalecidos e que os benefícios advindos desse uso sejam repartidos com as comunidades tradicionais.


Foto do grupo da esquerda para a direita (chefs e produtores): “Seu” Zilas e Dona Ana, Ana Paula Jacques, Diego Badra, Simon Lau, Lui Veronese, Marcos Lelis, Leandro Nunes, Leo Hamu, Francisco Ansiliero.

Crédito: Rafael Facundo

Adentrar no Cerrado é dispor de 5% da biodiversidade do planeta! Um privilégio qualquer cozinheiro. E para inspirar e mostrar a versatilidade dos saberes e sabores do Cerrado, os chefs convidados elaboraram receitas que revisitam tradições ou seguem a vanguarda da gastronomia. O livro é gratuito e pode ser acessado no site www.cerradonoprato. Lá também é possível encontrar o Manifesto e o Termo de Compromisso para fazer parte desse movimento.

Para manter o Cerrado em pé, vamos colocá-lo no prato! Então, aceitam o desafio?

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